Perdeu o prazo do REARP? Você ainda tem uma saída, e na maioria dos casos ela é mais barata do que muita gente imagina. A adesão ao Regime Especial de Atualização e Regularização Patrimonial (Lei 15.265/2025) encerrou em 19 de fevereiro de 2026 e não foi reaberta. Quem tem criptomoeda não declarada e ficou de fora deve regularizar por conta própria, através de uma declaração retificadora do Imposto de Renda e, quando houve venda com lucro, do pagamento do DARF em atraso. Fazendo isso de forma espontânea, antes de qualquer fiscalização, a multa cai para o teto de 20% sobre o imposto, em vez dos 75% que a Receita aplica quando é ela quem encontra o problema. O resto deste artigo mostra como fazer, quanto custa, e por que esperar é a pior decisão possível.
O que era o REARP e por que o prazo importava
O REARP foi criado pela Lei nº 15.265, publicada em 21 de novembro de 2025. Ele abriu uma janela para regularizar bens que nunca entraram na declaração: depósitos no exterior, cotas de fundos, imóveis, veículos e, no que interessa aqui, criptoativos. O artigo 9º da lei cita expressamente "criptoativos e demais ativos virtuais", ligando a definição ao marco legal das criptomoedas (Lei 14.478/2022). Valia para quem comprou até 31 de dezembro de 2024, desde que o dinheiro tivesse origem lícita.
O custo de aderir era simples de calcular: 15% de Imposto de Renda sobre o valor total do ativo regularizado, mais uma multa de 100% sobre esse imposto. Na prática, 30% do valor do bem. Um investidor com R$ 100 mil em Bitcoin fora da declaração pagaria R$ 30 mil para dormir tranquilo, com a punibilidade de eventuais crimes tributários extinta.
A adesão precisava ser feita em até 90 dias contados da publicação da lei. Isso levou o prazo para 19 de fevereiro de 2026. Havia ainda um segundo prazo que quase ninguém comenta: o pagamento à vista, ou da primeira das até 36 parcelas, tinha que ser feito até 27 de fevereiro de 2026, sob pena de a adesão não valer. Os dois prazos passaram. A lei não previu prorrogação, e a Receita não sinalizou uma nova rodada.
Ainda dá para regularizar cripto depois do REARP?
Dá, e é aqui que muita gente se assusta à toa. O REARP era um atalho, não a única porta. O caminho ordinário para regularizar bens de anos anteriores sempre existiu e continua aberto: a declaração retificadora do Imposto de Renda.
A retificadora permite corrigir declarações já entregues, incluindo criptoativos que ficaram de fora da ficha de Bens e Direitos, ou informando vendas que geraram imposto e nunca foram pagas. Você pode enviar quantas retificadoras quiser, para cada ano-calendário, usando o próprio programa do IRPF daquele ano. Há uma condição inegociável: isso só funciona enquanto a Receita não tiver iniciado nenhum procedimento de fiscalização contra você. Depois que chega a intimação, a porta da regularização espontânea se fecha e entra em cena a multa pesada.
A Receita pode cobrar tributos dos últimos cinco anos. É o prazo de decadência do artigo 173 do Código Tributário Nacional, contado a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido feito. Passado esse prazo, o crédito tributário caduca. Antes dele, tudo está em aberto.
Quanto custa regularizar agora (com números)
Aqui vale separar dois perfis, porque o custo é radicalmente diferente entre eles. E o resultado surpreende quem acha que perder o REARP foi uma tragédia.
Caso 1: você só comprou e segurou
Imagine que você comprou R$ 100 mil em cripto em 2021, nunca vendeu nada, e simplesmente esqueceu de lançar isso na ficha de Bens e Direitos. Segurar cripto não é fato gerador de imposto. Não existe tributo sobre "ter". A sua obrigação é apenas informar o bem na declaração, pelo custo de aquisição, no ano em que ele foi comprado e nos anos seguintes.
O que você faz é retificar as declarações desses anos incluindo o criptoativo no Grupo 08 da ficha de Bens e Direitos. Imposto a pagar sobre esse ajuste: zero. A retificadora em si não tem multa. No REARP, esse mesmo patrimônio teria custado R$ 30 mil.
Leia de novo, porque é contraintuitivo: quem só acumulou cripto e perdeu o prazo do REARP, na maioria dos casos, saiu ganhando por não ter aderido. Economizou os 30%. O REARP fazia sentido para quem tinha ganho de capital pesado e não declarado, medo de investigação criminal, ou origem de recursos difícil de comprovar ano a ano. Para o investidor comum que só comprou e guardou, era caro demais.
Caso 2: você vendeu com lucro e não pagou o DARF
Agora o caso que realmente pesa no bolso. Digamos que em 2022 você vendeu R$ 200 mil em Bitcoin num único mês, acima do limite de isenção de R$ 35 mil, com um custo de aquisição de R$ 80 mil. O ganho de capital foi de R$ 120 mil. A alíquota para ganhos até R$ 5 milhões é de 15%, então o imposto devido era de R$ 18 mil, com vencimento no último dia útil do mês seguinte à venda. Nunca foi pago.
Regularizando agora de forma espontânea, você gera o DARF em atraso e paga:
- Imposto: R$ 18 mil.
- Multa de mora: 0,33% ao dia, limitada a 20% do imposto. Como a dívida é de anos atrás, ela bate o teto. São R$ 3.600.
- Juros pela taxa Selic: acumulados mês a mês desde o vencimento. Numa dívida de 2022, esses juros costumam superar a própria multa.
Compare com o que acontece se você não fizer nada e a Receita autuar primeiro. O imposto continua sendo R$ 18 mil, a Selic incide igual, mas a multa de mora dá lugar à multa de ofício de 75%: R$ 13.500. A diferença entre os dois caminhos é limpa de calcular, porque a Selic é a mesma nos dois: R$ 3.600 contra R$ 13.500. São quase dez mil reais a mais pelo simples fato de ter esperado a fiscalização bater na porta em vez de se antecipar. E se a omissão for enquadrada como fraude ou sonegação, a multa é qualificada e sobe ainda mais.