O IOF sobre criptomoedas é uma proposta do governo brasileiro de cobrar 3,5% de Imposto sobre Operações Financeiras na compra de criptoativos, equiparando essa compra a uma operação de câmbio, como comprar dólar. A minuta de decreto surgiu em fevereiro de 2026, com previsão de isentar pessoas físicas em compras de até R$ 10 mil por mês. Só que a proposta não está em vigor: a consulta pública foi adiada em março de 2026, e até julho de 2026 não há decreto publicado nem data de retomada. Ou seja, ninguém paga esse IOF hoje. Mas o assunto está longe de ter morrido, e é aí que a conversa fica interessante.
Quem acompanha o mercado desde o começo do ano viu o tema explodir em fevereiro, sumir das manchetes em março e reaparecer por uma porta diferente em maio. Vou destrinchar cada uma dessas fases, porque a maioria dos textos que rankeiam no Google parou no mês em que a notícia vazou e ficou desatualizada. Aqui você vai entender o que foi proposto, em que pé a coisa está agora e, principalmente, como isso afetaria a sua carteira se voltar à mesa.
O que é o IOF sobre criptomoedas
O IOF é um imposto federal que incide sobre operações de crédito, câmbio, seguro e títulos. Quando você compra dólar em espécie numa casa de câmbio, paga IOF. Quando faz uma remessa para o exterior, paga IOF. A lógica da proposta é simples: se comprar cripto (sobretudo stablecoin atrelada ao dólar) virou, na prática, uma forma de comprar moeda estrangeira, por que essa operação escaparia do imposto que todo o resto do câmbio paga?
A alíquota que apareceu na minuta obtida pela imprensa foi de 3,5%, a mesma que se aplica hoje à compra de moeda estrangeira em espécie. O argumento do governo é o que os técnicos chamam de neutralidade fiscal: acabar com a "arbitragem tributária" de usar cripto para fugir do IOF do câmbio tradicional.
E tem um número que sustenta a pressão. O volume de criptoativos declarados à Receita Federal saltou de R$ 94,9 bilhões em 2020 para R$ 415,8 bilhões em 2024, uma alta de 438% em quatro anos. Com esse tamanho, o mercado deixou de ser irrelevante para o caixa da União e entrou de vez no radar da arrecadação.
Em que pé está a proposta hoje (a parte que quase ninguém atualizou)
Aqui está o ponto que a maioria dos artigos ignora. A consulta pública sobre o decreto de IOF foi suspensa em março de 2026. O contexto é político: houve troca no comando da Fazenda (Dario Durigan assumiu no lugar de Haddad, que saiu para disputar o governo de São Paulo) e a equipe econômica decidiu não abrir uma frente tributária impopular às vésperas da eleição presidencial de outubro.
Traduzindo: a proposta original está congelada. Não foi arquivada de vez, não foi aprovada, não virou decreto. Ficou parada, sem data de retomada confirmada até julho de 2026.
Se a história parasse por aí, seria fácil dizer "esquece, não vai acontecer". O problema é que ela não parou. Enquanto o decreto de IOF hibernava, o Banco Central avançou por um caminho paralelo. Desde fevereiro de 2026, operações com stablecoins referenciadas em moeda estrangeira passaram a ser tratadas como operações de câmbio pela regulação cambial. Em maio, o BC foi além e defendeu, em parecer ao Congresso, que stablecoin não é ativo virtual e sim uma espécie de "moeda privada".
Isso muda o jogo, e a razão é jurídica. Se a stablecoin passa a ser câmbio aos olhos do regulador, o IOF do câmbio pode incidir sobre ela quase automaticamente, sem depender do decreto que ficou parado. A ameaça, que parecia enterrada em março, voltou por outra via em maio. É esse o estado das coisas hoje: proposta engavetada de um lado, cerco regulatório apertando do outro.
A isenção de R$ 10 mil e a confusão com os R$ 35 mil do Imposto de Renda
Essa é a dúvida que mais aparece, e onde mais gente se enrola. A proposta de IOF prevê isentar a pessoa física em compras de até R$ 10 mil por mês. Compras acima desse valor mensal cairiam na alíquota.
O detalhe chato é que existe outra isenção famosa, a de R$ 35 mil, e as duas não têm nada a ver uma com a outra. A isenção de R$ 35 mil é do Imposto de Renda: quem vende menos de R$ 35 mil em cripto num único mês não paga IR sobre o ganho de capital daquela venda. É uma regra que já existe, vale hoje, e trata da venda com lucro. Você pode conferir como ela funciona no nosso guia sobre a isenção de R$ 35 mil na venda de cripto.
O IOF de R$ 10 mil proposto é outra coisa: incidiria sobre a compra, independente de você ter lucro ou não, e é imposto sobre a operação, não sobre o ganho. Nos atendimentos e nas dúvidas que recebemos, misturar esses dois números é o erro mais comum. Uma coisa é o imposto que você pode dever quando vende com lucro. Outra, bem diferente, é um imposto cobrado no ato de comprar, tenha lucro ou não.
Um aviso de honestidade: uma parte da cobertura chegou a dizer que o IOF cobraria "desde o primeiro real". Não achei fonte firme que confirme isso, e a leitura mais provável é que essa versão confundiu o IOF com a isenção de IR de R$ 35 mil. As fontes independentes que se sustentam apontam para o piso de R$ 10 mil mensais. Enquanto não sair o texto oficial do decreto, é esse número que trato como o mais confiável.