Sim, você precisa declarar a cripto que está na sua carteira própria, mesmo sem nenhuma exchange envolvida. No Imposto de Renda, o que define a obrigação é a posse do ativo e o seu custo de aquisição, não onde ele está guardado. Lance cada tipo de criptoativo na ficha de Bens e Direitos, grupo 08, pelo valor que você pagou (não pela cotação de hoje), sempre que o custo daquele tipo for igual ou maior que R$ 5.000. Imposto sobre ganho só aparece quando você vende, troca ou usa a cripto para pagar algo, e ainda assim só se a soma das suas vendas no mês passar de R$ 35.000.
A autocustódia muda uma coisa importante: não existe uma corretora gerando seu informe e reportando à Receita por você. Na prática, isso significa que a responsabilidade de declarar e, a partir de julho de 2026, de reportar as operações é toda sua. Carteira própria não é capa de invisibilidade nem isenção automática. É o mesmo imposto, só que com você no comando da papelada.
O que conta como autocustódia
Autocustódia é quando você guarda a cripto numa carteira cuja chave privada é só sua. Entram aí as hardware wallets (Ledger, Trezor), as carteiras de software como MetaMask e Trust Wallet, e qualquer carteira fria ou quente onde você controla a seed phrase. O oposto é deixar a cripto na corretora: lá quem detém a chave é a exchange, e é ela que monta o seu relatório anual de operações.
Essa diferença parece técnica, mas tem efeito fiscal direto. Quando o ativo está na Binance ou na Mercado Bitcoin, existe um terceiro que registra suas compras e vendas e presta contas ao fisco. Na carteira própria, esse terceiro some. O dever de memória passa a ser seu: datas, valores em reais, custo de cada lote.
Em qual código declarar cripto na carteira própria
Criptoativo vai na ficha Bens e Direitos, no grupo 08 (Criptoativos). Dentro do grupo, o código depende do tipo de ativo:
- 01: Bitcoin (BTC)
- 02: outras criptomoedas, as altcoins (Ether, Solana, etc.)
- 03: stablecoins (USDT, USDC e similares)
- 10: NFT
- 99: demais criptoativos (fan tokens e outros que não se encaixam acima)
O local de guarda não muda o código. Bitcoin é código 01 esteja ele na Ledger, na MetaMask ou numa exchange. No campo de discriminação você descreve a posição: quantidade, que está em autocustódia e, quando fizer sentido, o modelo da carteira. Cada tipo de ativo entra em um item separado, com seu próprio custo.
Pelo custo, nunca pela cotação
O valor que entra na declaração é o custo de aquisição: quanto você pagou em reais quando comprou, somando taxas. Se você comprou 0,3 BTC por R$ 24.000 e o preço triplicou, a posição continua declarada por R$ 24.000. A valorização não atualiza o saldo da ficha e não gera imposto enquanto você não vende. Esse é um dos pontos que mais confunde quem está começando, segundo o que vemos nos nossos usuários: muita gente tenta lançar o valor de mercado atual e acaba inflando o patrimônio na declaração sem precisar.
O piso de R$ 5.000 é por tipo de ativo
A obrigação de declarar na ficha de bens surge quando o custo de aquisição de um tipo de criptoativo chega a R$ 5.000. O piso é avaliado por tipo, não pela carteira inteira somada. Você pode ter R$ 4.000 em Bitcoin e R$ 4.000 em Ether: nenhum dos dois bate o piso individualmente, ainda que a soma passe de R$ 5.000. Por prudência, muita gente declara mesmo abaixo do piso para manter o histórico organizado, o que ajuda demais lá na frente quando vender.
Mover cripto entre carteiras suas não paga imposto
Transferir da exchange para a sua Ledger, ou de uma carteira sua para outra carteira sua, não é venda. Não há mudança de titularidade, então não existe ganho de capital nem fato gerador. Você continua dono do mesmo ativo, com o mesmo custo de aquisição, só que num local diferente.
O que gera imposto é a alienação: vender por reais, trocar um cripto por outro (uma permuta de BTC por ETH já conta), ou usar a cripto para pagar um produto ou serviço. Vale para qualquer canal, inclusive venda P2P direto da carteira ou swap numa DEX. O fato de a operação não passar por uma corretora brasileira não a torna isenta, só tira o intermediário que registraria o evento por você. Quer ver a lista completa? Reunimos as operações cripto que geram imposto de renda em outro artigo.
Quando vender da carteira própria gera DARF
A isenção de ganho de capital cobre os meses em que a soma de todas as suas vendas fica em R$ 35.000 ou menos. O teto é da soma do mês, considerando todas as origens juntas: o que você vendeu na exchange, no P2P e na DEX entra no mesmo bolo. Não é R$ 35.000 por carteira nem por plataforma. Passou disso no mês, o ganho daquelas vendas vira tributável.
Quando há imposto a pagar, a alíquota é progressiva sobre o ganho do mês, conforme o art. 21 da Lei 13.259/2016:
- 15% sobre o ganho até R$ 5 milhões
- 17,5% na faixa de R$ 5 milhões a R$ 10 milhões
- 20% de R$ 10 milhões a R$ 30 milhões
- 22,5% acima de R$ 30 milhões
Na vida real da pessoa física, quase tudo cai nos 15%. O imposto é recolhido por DARF, código 4600, com vencimento no último dia útil do mês seguinte ao da venda.
Um exemplo com os números fechados
Digamos que em março você vendeu 0,5 BTC que estavam na sua Ledger por R$ 60.000. Esse Bitcoin tinha custo de aquisição de R$ 40.000. Foi sua única venda no mês.
- Soma das vendas em março: R$ 60.000. Passou de R$ 35.000, então não há isenção.
- Ganho de capital: R$ 60.000 menos R$ 40.000, igual a R$ 20.000.
- O ganho está bem abaixo de R$ 5 milhões, então a alíquota é 15%.
- Imposto: R$ 20.000 vezes 0,15, igual a R$ 3.000.
Esses R$ 3.000 saem num DARF código 4600, a pagar até o último dia útil de abril. Se a venda fosse de R$ 30.000 com o mesmo custo, a soma do mês ficaria abaixo do teto e o ganho seria isento, mas você ainda registraria a operação para manter o histórico. O passo a passo do cálculo está em como calcular o DARF de criptomoedas.