Ninguém perde as criptomoedas por causa dessas mudanças. A Bitfinex desligou em 14 de outubro de 2026 a integração com o SWAPiX, que convertia USDT em reais pelo Pix, e a Crypto.com fecha a conta em reais em 25 de outubro de 2026, transformando em USDC o saldo em reais que ficar para trás. Nas duas, as moedas seguem na sua conta: o que acaba é a porta de entrada e saída em reais. E deixar tudo lá fora não tira ninguém do radar da Receita, porque cripto guardada em corretora estrangeira é tributada pela Lei 14.754/2023, sem a isenção de R$ 35 mil por mês, e a DeCripto continua valendo.
A dúvida que mais chegou até nós nesta semana foi outra, quase ao contrário: "se eu deixar lá, a Receita deixa de ver?". Não deixa. O que muda é quem tem o trabalho de informar, e esse detalhe pode acabar caindo no seu colo.
Este texto separa o que de fato aconteceu, as três saídas possíveis (ficar, migrar para uma corretora brasileira ou ir para a autocustódia) e a consequência fiscal de cada uma, com números.
O que mudou em cada corretora
Bitfinex: acabou a ponte com o Pix
O aviso enviado aos clientes foi curto: a partir de 14/10/2026, a integração com o SWAPiX, da Smartpay, foi descontinuada na Bitfinex. Era essa integração, acessada pelo recurso Fast Pay do aplicativo, que permitia trocar USDT por reais e sacar via Pix (BitNotícias, TechCripto).
A corretora não explicou o motivo, não anunciou substituto e não falou em fechar contas de brasileiros. Algumas manchetes falaram em "saída do Brasil". Até a data deste artigo, isso não foi confirmado pela empresa.
Crypto.com: a conta em reais fecha em 25 de outubro
Aqui existe comunicado oficial, publicado na central de ajuda em 15 de setembro de 2026 (Crypto.com). A partir de 25 de outubro, a Conta em BRL deixa de existir para usuários brasileiros. Param o depósito de reais, o saque para conta bancária e a negociação direta entre real e cripto. Ordens limite, compras recorrentes e ordens TWAP financiadas pela conta em reais serão canceladas na mesma data.
O saldo em reais que sobrar depois de 25 de outubro vira USDC pela cotação de mercado do momento e vai para a sua carteira cripto no app. A negociação de cripto, o cartão e o staking continuam funcionando (Webitcoin).
| Corretora | O que acabou | Data | O que continua |
|---|---|---|---|
| Bitfinex | Conversão de USDT em reais via Pix (SWAPiX/Smartpay) | 14/10/2026 | Conta e saldo em cripto (sem anúncio de encerramento) |
| Crypto.com | Conta em reais: depósito, saque e negociação contra o real | 25/10/2026 | Mais de 400 criptomoedas, cartão e staking |
Por que isso acontece agora
Nenhuma das duas atribuiu a decisão ao Banco Central. Mas o calendário ajuda a entender o momento.
A Resolução BCB nº 520, em vigor desde 2 de fevereiro de 2026, deu às empresas que já operavam no país um prazo máximo de 270 dias para pedir autorização ao BC (art. 88). O prazo termina em 30 de outubro de 2026. Quem não pedir precisa encerrar os serviços em até 30 dias depois do fim desse prazo.
A segunda data é 6 de novembro de 2026. Pelo art. 91, na redação dada pela Resolução BCB nº 589, bancos, instituições de pagamento e demais instituições autorizadas pelo BC ficam proibidos de realizar ou viabilizar operações com prestadoras de ativos virtuais que não estejam autorizadas a funcionar no país, salvo as exceções da própria resolução. O parágrafo único deixa claro que a proibição alcança contas de pagamento e transações de pagamento. O Pix mora exatamente aí.
Ou seja: a ponte em reais é o primeiro pedaço a cair quando uma corretora ainda não resolveu sua situação com o BC. Escrevemos um guia separado sobre o que fazer se a sua exchange não pedir autorização ao Banco Central, com o passo a passo do lado operacional.
Os três caminhos e o que cada um custa
1. Ficar onde está
Não custa nada no curto prazo. Nenhuma taxa de saque, nenhum imposto.
O problema aparece no dia em que você quiser reais. Sem Pix, a moeda terá de sair da Bitfinex ou da Crypto.com de qualquer jeito, só que talvez com pressa, com a rede congestionada ou com o preço contra você. E enquanto ela estiver lá, valem as regras de aplicação no exterior, que veremos adiante. Ficar só faz sentido para quem já opera em USDT, não pretende voltar ao real tão cedo e aceita o regime do exterior.
2. Migrar para uma corretora brasileira
O custo é a taxa de saque da rede (varia por moeda e por rede escolhida) e o trabalho de conferir o endereço de depósito. O ganho é ter Pix de novo e, numa corretora autorizada, as regras de segregação patrimonial da Resolução 520. Os arts. 28 a 30 obrigam a prestadora a manter os reais dos clientes em contas individualizadas no nome de cada um e a guardar as criptos dos clientes em carteiras separadas das dela, com prova de reservas e auditoria independente a cada dois anos.
Antes de escolher o destino, confira se a corretora anunciou publicamente que pediu a autorização ao BC. Trocar uma corretora sem Pix por outra que pode perdê-lo em 6 de novembro não resolve nada.
3. Levar para a autocustódia
Carteira própria, chave na sua mão. A taxa é a mesma do saque de rede, e o risco muda de lugar: sai o risco da empresa, entra o risco de perder a frase de recuperação ou mandar para o endereço errado. Comparamos os dois modelos em cold wallet ou exchange: onde guardar criptomoedas.
Nossa recomendação, olhando os históricos que passam pela plataforma: separe o que você pretende vender nos próximos meses do que é reserva de longo prazo. A parte que vai virar reais vai para uma corretora brasileira que tenha pedido autorização. A reserva vai para a autocustódia. Deixar 100% numa corretora estrangeira sem saída em reais é a opção que menos protege o investidor comum, e a que mais complica a declaração.