Para declarar a Bitget no Imposto de Renda, trate a conta como aplicação financeira no exterior, pela Lei 14.754/2023. O saldo vai em Bens e Direitos (grupo 08, pelo custo em reais e com localização fora do Brasil) e o lucro realizado no ano paga 15% na declaração anual, sem a isenção de R$ 35 mil por mês e sem DARF mensal. Em paralelo, todo mês em que as suas operações na Bitget passarem de R$ 35 mil, você mesmo entrega a DeCripto até o último dia útil do mês seguinte, porque a Bitget não emite informe brasileiro nem reporta no seu lugar.
Abaixo vem o que é próprio da Bitget e que os guias genéricos pulam: quase tudo lá é cotado em USDT, a exportação é separada por tipo de conta, existe subconta, e o nosso leitor de arquivo importa só uma parte disso.
Por que a Bitget entra no regime do exterior
A Receita não olha para o idioma do aplicativo nem para o Pix que você usou para comprar USDT. Olha para quem guarda e negocia a moeda. A IN RFB 2.180/2024, que regulamentou a Lei 14.754, diz no art. 9º, § 2º, que os ativos virtuais são considerados localizados no exterior "quando forem custodiados ou negociados por instituições localizadas no exterior", seja qual for o emissor da moeda.
A Bitget anunciou em novembro de 2022 o registro nas Seychelles. Nas fontes que consultamos, não achamos migração de contas de brasileiros para uma empresa local com CNPJ. Na prática, então: conta aberta com a Bitget global segue a Lei 14.754.
Um cuidado. Algumas corretoras estrangeiras abriram braço brasileiro e passaram os clientes para ele (contamos o caso da KuCoin em outro artigo), e o regime muda a partir da data da troca de contrato. Se a Bitget um dia mandar um e-mail desse tipo, guarde a data. Ela parte o seu ano em dois.
O que muda em relação a uma corretora brasileira
| Corretora brasileira | Bitget (exterior) | |
|---|---|---|
| Isenção de vendas até R$ 35 mil no mês | Existe | Não existe |
| Alíquota | 15% a 22,5%, progressiva, por mês | 15% fixa sobre o resultado do ano |
| Pagamento | DARF mensal, código 1897 | Na declaração anual |
| Perdas | Regras do ganho de capital | Compensáveis com outras aplicações no exterior |
| DeCripto mensal | Entregue pela corretora | Entregue por você, acima de R$ 35 mil no mês |
O código 1897 foi criado pelo ADE Codar nº 16/2026, publicado no Diário Oficial em 29 de abril de 2026, para o DARF de ganho de capital na alienação de criptoativos. Ele serve ao regime das corretoras brasileiras. Na conta da Bitget, ele não entra. A comparação dos dois regimes, com mais detalhe, está em corretora nacional ou estrangeira no Imposto de Renda.
O detalhe da Bitget que mais gera erro: tudo é cotado em USDT
Na Bitget quase nada é negociado contra o real. Você compra BTC com USDT, vende SOL por USDT, a margem dos futuros é em USDT e o lucro do copy trading cai em USDT. Daí vem um hábito: acompanhar o ano em dólar ("ganhei 6 mil USDT") e, em março, multiplicar pelo dólar do dia para achar o imposto.
O atalho erra por dois motivos.
O primeiro é que o USDT também é criptoativo e tem custo em reais. Quando você usa 12.000 USDT para comprar bitcoin, está alienando esses 12.000 USDT. Se eles custaram R$ 5,60 cada e valiam R$ 5,80 no dia da troca, a troca gerou resultado. A Lei 14.754, no art. 3º, § 1º, inciso II, inclui entre os rendimentos a "variação da criptomoeda em relação à moeda nacional". A variação do USDT contra o real conta, mesmo que você nunca tenha sacado um centavo.
O segundo é a data. Cada operação é convertida pela cotação do dia em que aconteceu: o art. 57 da IN 2.180/2024 manda usar a cotação de fechamento, para venda, divulgada pelo Banco Central para a data do fato gerador. Um lucro de 10.000 USDT realizado com o dólar a R$ 5,40 vale R$ 54.000. O mesmo lucro com o dólar a R$ 5,80 vale R$ 58.000.
Na nossa plataforma, é o erro que mais vemos em quem chega de corretora estrangeira com planilha própria. A planilha tem a coluna de lucro em USDT e nenhuma coluna de custo do próprio USDT. Quando o histórico entra no sistema, o USDT vira uma moeda como as outras, com custo médio em reais, e a diferença aparece de cara. Se o conceito de custo médio ainda é nebuloso, este texto ajuda: custo médio ponderado de criptomoedas.
Um ano na Bitget, contado em reais
Caso inventado, com números redondos. Duas simplificações: o USDT vale exatamente 1 dólar, e a cotação do dia é a do dólar.
Em janeiro, a pessoa envia para a Bitget 30.000 USDT que comprou numa corretora brasileira, com custo médio de R$ 5,60 (R$ 168.000 no total). Transferir entre contas próprias não é venda, então o custo viaja junto. Depois disso:
| Mês | Operação | Dólar do dia | Valor em reais | Resultado |
|---|---|---|---|---|
| Fevereiro | Compra 0,2 BTC pagando 12.000 USDT | R$ 5,80 | R$ 69.600 | +R$ 2.400 no USDT |
| Abril | Compra 100 SOL pagando 15.000 USDT | R$ 5,70 | R$ 85.500 | +R$ 1.500 no USDT |
| Agosto | Vende 0,2 BTC por 22.000 USDT | R$ 5,40 | R$ 118.800 | +R$ 49.200 no BTC |
| Outubro | Vende 100 SOL por 11.000 USDT | R$ 5,50 | R$ 60.500 | -R$ 25.000 no SOL |
A conta de cada linha:
- Fevereiro: os 12.000 USDT entregues valiam R$ 69.600 e custaram R$ 67.200 (12.000 × R$ 5,60). Resultado de R$ 2.400. O bitcoin entra com custo de R$ 69.600.
- Abril: 15.000 USDT valiam R$ 85.500 e custaram R$ 84.000. Resultado de R$ 1.500. O SOL entra com custo de R$ 85.500.
- Agosto: o bitcoin sai por R$ 118.800 (22.000 × R$ 5,40) contra custo de R$ 69.600. Ganho de R$ 49.200.
- Outubro: o SOL sai por R$ 60.500 contra custo de R$ 85.500. Perda de R$ 25.000.
Somando: R$ 2.400 + R$ 1.500 + R$ 49.200 - R$ 25.000 = R$ 28.100 de resultado no ano. A 15%, R$ 4.215 de imposto, apurado na declaração entregue em 2027.
Agora o atalho em USDT. Bitcoin: comprou por 12.000 e vendeu por 22.000, ganho de 10.000 USDT. SOL: comprou por 15.000 e vendeu por 11.000, perda de 4.000. Saldo de 6.000 USDT, multiplicado pelo dólar de dezembro (digamos R$ 5,50), dá R$ 33.000 e R$ 4.950 de imposto. R$ 735 a mais neste caso. Em outro ano, com outra sequência de cotações, o atalho pode errar para menos, e aí o problema muda de tamanho.
Repare que não aparece isenção nenhuma. A regra explicada em isenção de R$ 35 mil na venda de cripto vale para corretora brasileira; na Bitget, ela não se aplica.
Em 31 de dezembro sobram 36.000 USDT: 3.000 do lote original (custo R$ 16.800), 22.000 da venda do bitcoin (R$ 118.800) e 11.000 da venda do SOL (R$ 60.500). É esse custo, R$ 196.100, que vai para Bens e Direitos.
Spot, futuros, copy trading e subcontas: o que baixar
A Bitget separa os relatórios, e o guia oficial de exportação deixa claro o que cada um traz. Os pontos que importam para o Imposto de Renda:
- Só pelo site. A exportação não existe no aplicativo.
- Dois tipos de arquivo. O histórico de transações traz depósitos, saques, transferências e taxas. O histórico de ordens traz as negociações: spot, margem, futuros, Convert, Earn e outros.
- Até 2 anos por pedido, com até 100 exportações por mês.
- O link de download vale 7 dias. Gerou e esqueceu, gera de novo.
Futuros merecem atenção à parte. A Lei 14.754 lista expressamente os derivativos entre as aplicações financeiras no exterior (art. 3º, § 1º, inciso I), e o resultado dos contratos em USDT entra no mesmo resultado anual tributado a 15%, convertido para reais na data de cada liquidação.
No copy trading, as ordens são executadas na sua conta, então são suas para efeito de imposto. A participação no lucro que vai para o trader sai do seu saldo em USDT e precisa ser registrada, senão o saldo final não bate. Se essa participação pode ser abatida do resultado, há pouca orientação oficial, e a IN 2.180 (art. 10) diz que o rendimento do exterior é tributado "não se aplicando nenhuma dedução". Nossa recomendação: registre a saída, não abata nada por conta própria e leve a dúvida ao seu contador.
Com subcontas, o raciocínio é simples. O resultado do ano é apurado por CPF, somando todas as subcontas. Na tela de exportação, confira de qual conta é o arquivo e baixe o histórico de todas. E a transferência de USDT da conta principal para a subconta, ou do spot para os futuros, é movimentação interna: não vende nada.
Nossa posição sobre frequência é firme: exporte a cada trimestre, e não em março. A DeCripto é mensal, o limite de 2 anos por pedido corta históricos longos, e uma corretora estrangeira pode mudar de regra ou de entidade de um ano para o outro. Arquivo guardado no seu computador não depende da boa vontade de ninguém.
Onde lançar a Bitget na declaração
Na ficha Bens e Direitos, grupo 08 (Criptoativos), um item para cada tipo de moeda:
- Código 01: bitcoin.
- Código 02: outras criptomoedas (ETH, SOL e afins).
- Código 03: stablecoins, onde entra o USDT.
- Código 10: NFTs.
- Código 99: demais criptoativos.
A declaração é obrigatória para cada tipo cujo valor de aquisição chegue a R$ 5.000 ou mais, conforme os guias do IRPF 2026 (InfoMoney, Blue Consult). No campo de localização, informe um país fora do Brasil. Usamos o da entidade com quem a conta é mantida; para a Bitget global, as Seychelles, que é o registro informado pela própria empresa.
Na discriminação, escreva a moeda, a quantidade em 31/12, "custodiado na corretora Bitget, no exterior" e, se ajudar, a forma de aquisição. O valor é o custo em reais. Nunca o valor de mercado. Temos um texto inteiro sobre isso: qual valor declarar em Bens e Direitos.
O resultado do ano (ganhos menos perdas realizados, em reais) é informado junto ao bem localizado no exterior, e o programa aplica os 15%. Pelo art. 11 da IN 2.180/2024, perdas realizadas em aplicações no exterior compensam rendimentos do mesmo período, e o que sobrar pode ser usado nos anos seguintes. O passo a passo da compensação está em como compensar prejuízo de cripto no exterior, e a lei em si em Lei 14.754 e a tributação de criptomoedas.
A DeCripto: a parte que não espera abril
É a obrigação que mais escapa de quem só pensa no imposto anual.
Desde 1º de julho de 2026 vale a DeCripto, criada pela IN RFB 2.291/2025, publicada em 17 de novembro de 2025 e anunciada pela Receita Federal como a adaptação ao padrão internacional CARF, da OCDE. Corretora brasileira reporta todo mês, qualquer valor. Já a pessoa física que opera com prestadora no exterior, como a Bitget, só fica obrigada no mês em que as operações passam de R$ 35 mil, e entrega pelo e-CAC até o último dia útil do mês seguinte (CEPEDA, DNA Law). Até junho valia a IN 1.888/2019, com limite de R$ 30 mil, e a página do serviço no gov.br já tratava a exchange domiciliada no exterior como gatilho da obrigação.
Esse R$ 35 mil serve só para saber se você precisa declarar naquele mês; ele não isenta nada e não cobra imposto. No exemplo acima, os quatro meses com operação passaram de R$ 35 mil (até a compra de fevereiro, de R$ 69.600), então seriam quatro DeCriptos, cada uma com seu prazo. A multa por atraso para pessoa física é de R$ 100 por mês ou fração, e informação inexata custa 1,5% do valor da operação, segundo a análise da DNA Law sobre a norma. O que mudou entre as duas instruções normativas está em DeCripto x IN 1.888, e o quadro de penalidades em multas da Receita sobre criptomoedas.
Como o Controle Cripto lê o arquivo da Bitget hoje
Convém ser exato aqui.
Temos um leitor de arquivo próprio para a Bitget, e ele lê o histórico de ordens spot em CSV, aquele com as colunas Date(UTC), Pair, Side, Price, Amount, Total, Fee e Fee Currency. O caminho que indicamos dentro do sistema é Orders > Spot Orders > Order History > Export, de preferência no formato CSV, que é o que o leitor foi feito para ler. Cada linha de compra vira uma Compra (a moeda base entra, o USDT sai), cada venda vira uma Venda, e a taxa entra com a moeda em que foi cobrada.
Um detalhe de que nos orgulhamos: a coluna diz que o horário está em UTC, e o sistema respeita isso. Uma ordem feita às 23h30 do dia 31 em Brasília aparece no arquivo como 02h30 do dia seguinte. Lida do jeito errado, ela escorregaria para o mês seguinte e bagunçaria a apuração mensal. Aqui ela fica no dia 31.
Se os arquivos que você baixou têm períodos sobrepostos (o limite de 2 anos por pedido costuma forçar isso), a pré-visualização avisa as transações que parecem repetidas e você decide o que fica. Não descartamos nada sozinhos, porque duas compras iguais no mesmo dia podem ser legítimas.
Agora o que o leitor da Bitget não faz:
- Não lê depósitos, saques nem transferências. Essas entram à mão ou pela importação de CSV genérico.
- Não lê futuros, Earn nem o histórico do copy trading de futuros.
- Não há conexão por API com a Bitget hoje. Ela está na nossa fila de integrações, sem data prometida.
Pares cotados em USDT, USDC e BRL são reconhecidos direto. Se você negociou pares contra outra moeda (ETH/BTC, por exemplo), confira essas linhas na pré-visualização antes de confirmar. Para o fluxo geral de importação, temos um guia em como importar transações de exchange.
Se você quer testar com o seu próprio arquivo, crie uma conta e importe o CSV de spot da Bitget. O custo médio em reais, inclusive o do USDT, sai calculado.
Perguntas frequentes
A Bitget informa minhas operações para a Receita Federal?
Não há informe de rendimentos brasileiro da Bitget, e a obrigação de declarar é sua. O padrão CARF da OCDE, adotado pela DeCripto, prevê troca de informações entre países, mas não substitui a sua declaração mensal nem o lançamento no IRPF.
Tenho a isenção de R$ 35 mil vendendo cripto na Bitget?
Não. A isenção de vendas até R$ 35 mil por mês vale para o regime de ganho de capital das corretoras brasileiras. Na Bitget, conta no exterior, o resultado do ano inteiro é tributado a 15% pela Lei 14.754, sem faixa isenta.
Preciso pagar DARF todo mês pelo que faço na Bitget?
Não. O imposto da Bitget é apurado uma vez por ano, na declaração. O que pode ser mensal é a DeCripto, que só informa as operações e só é exigida nos meses em que elas passam de R$ 35 mil.
Mandar USDT de uma corretora brasileira para a Bitget gera imposto?
Transferir entre contas suas não é venda, então não gera imposto e o custo de aquisição vai junto. Depois da transferência, porém, as próximas negociações passam a seguir o regime do exterior, e em Bens e Direitos o saldo da Bitget fica num item separado, com localização fora do Brasil.
Como declarar o lucro de futuros na Bitget?
O resultado dos contratos futuros entra no resultado anual das aplicações no exterior, convertido para reais na data de cada liquidação e tributado a 15%. Exporte o histórico de ordens de futuros pelo site da Bitget. No Controle Cripto, esse arquivo ainda não é lido automaticamente, então os resultados precisam ser lançados à mão.
Resumindo para quem tem conta na Bitget
Três coisas, nesta ordem. Pense em reais, operação por operação, contando o USDT como moeda com custo próprio. Entregue a DeCripto em todo mês que passar de R$ 35 mil, sem esperar abril. E guarde os arquivos da Bitget a cada trimestre, todos eles, de todas as subcontas.
O imposto de 2026 só é pago na declaração de 2027. A papelada começa agora. Se quiser que o custo médio e o resultado em reais saiam prontos a partir do seu CSV, crie sua conta no Controle Cripto.